Em agosto de 1989, numa noite peculiarmente gelada para o Rio de Janeiro, estava ele sento no chão encarpetado às 00:50. Domado por uma sensação de impotência, de mangas compridas percorria parado o chão, absorto, transportado para algum lugar. Talvez pensando na filhinha, sem conseguir imaginar direitos os problemas por vir. O sono da casa em Copacabana, o frio da brisa do mar de inverno, fazia-lhe lembrar da juventude no Sul. Dos tempos distantes, sentia inveja (estática) e não nostalgia. Talvez estivesse pensando em como se virar pra arranjar grana suficiente. As perspectivas faziam tremer, ainda mais num momento daqueles...
Sentado, prostrado, as costas de um velho, tinha 40 anos e uma barba espessa. Os cabelos começando a rarear, os efeitos do whisky na madrugada, vasculhando coisas, nas caixas, nos papéis. Impostos, declarações. Como será que uns agentes federais o viam? Um sujeito feliz certamente. Mora na quadra da praia, nos fundos, Copacabana já entrada na fase de decadência. Família comum, um ex-casamento, parentes distantes. Um eterno deslocado, um sem-lugar, sem pátria, um desgarrado. No olhar que surgia sobre a barba via-se alguém que não tem nada a perder, que fez assim sua vida, meio livre, meio solto, meio perdido. Também não ligava pros porteiros comentando com os jornaleiros sobre seu sotaque, seus hábitos, seu acordar tarde e sairde casa quando todos estão no trabalho. Naquela época ele saia mais de casa, não tinha pego tão forte esse ser de árvore, estacionado numa cadeira. Gostava de sentar no chão, ainda não havia computador, e a máquina não tinha atração especial, era banal. Saía de casa e rumava para o centro. Andava pelas ruas cheias, os prédios altos, as obras... Milhares deguimbas de cigarro, milhares de papéis picados, anúncios, vozes em microfones... Alheio, caminhava solto, blindado pelo ar, era como se fosse feriado, e a única coisa a percorrer as ruas do Centro fosse um vento de rodamoinho.
Sentado, sofria com a impotência de não poder controlar o acaso, coisa de genes, sofria por se sentir injustiçado, nada tinha feito, até ali ia tudo bem. Por que a vida dá essas rasteiras? Ao olhar para o corrdor e ver a porta do quarto entreaberta, previu o ressonar da respiração da mulher adormecida. Por que ela? Será que estava distraído, carente no dia? Quanto tem que se pagar pelos erros da distração?
Na dormência das pernas pesadas, um gigante custa caro parado. Ele se alimentava dos restos de sua auto-confiança. Perdido, nunca perdera a pose de durão, das coisasque aprendeu quando moleque. O que ele havia perdido era a vontade, o desejo de qualquer coisa.
posted by PEDRO CAZES 01:12
que no fundo da minha integridade tem a inveja
a verdade da minha segurança é o arrependimento
a temperatura da minha calma fala do abafo
do sufoco dissimulado:
no fundo das certezas tem o mesmo perdido do começo.
posted by PEDRO CAZES 00:58
o oceano
é feito todo de uma
água grossa
uma água-pedra azul
algum diamante vulgar
vendido sob o sal da maresia
ainda em estado bruto:
o mar ainda não foi lapidado (domado).
Dessa solidez vê-se na impossibilidade de o penetrar
na possibilidade de caminhar sobre ele,
com proximidade,
sem entretanto o conhecer
prever
o oceano vive muito bem sem nós
ele é imenso
é quase tudo,
e fala de um vazio chamado horizonte
total.
posted by PEDRO CAZES 00:55
trago
fins
de outono
posted by PEDRO CAZES 00:32
a melodia muda percorre
sertões
atravessa o ar seco da noite
ecoando o silêncio lá de longe
eu continuo ouvindo a tevê,
ou os gritos
a intensidade gira em vão na minha cabeça:
tento mas não consigo ouvir o som da goteira da pia.
posted by PEDRO CAZES 00:31
música sem palmas
o vibrafone
toca com órgãos de sonho
tem relação infantil, de tato:
não merece o ataque ponti-agudo das palmas ao final.
posted by PEDRO CAZES 00:47
a poesia fala da falta de tempo tesão paciência
a poesia não pode mais tecer texturas
eu não tenho fôlego
e então a poesia vira pedra
rock
com a qual se fala a língua mais direta possível:
veias e trevas nos olhos escuros de alguém na multidão.
posted by PEDRO CAZES 19:35
haikai
a poesia cai
em forma de ais
versos tolos de uma existência comum
agora tem blog, e canal pra falar:
falar o que?
eu espero ônibus na praia de botafogo
no ponto em frente ao shopping
sob a luz amarela a noite revela a poesia interditada:
(em algum lugar)
desejo.
posted by PEDRO CAZES 19:32
Berlim ouvindo Kraftwerk (para uma geografia sensorial das cidades)
Escrevo pensando na Alemanha. Em Berlim. Uma cidade enorme e ampla, onde parecemos flutuar sobre a neve congelada no chão. uma cidade que parece esconder algo, como se descobri-la fosse um jogo, contido. escrevo agora só, e talvez lá, vivendo e vendo as coisas com os olhos do rosto não a entendesse tanto quanto agora. Já é possível sentir a marca que ela deixou gravada, não pela minha vontade (planos, mapas, programas) mas pela experiência. A experiência - é claro - eu não controlo, ela nem mesmo é totalmente consciente. de modo que não é possível saber o que vai ficar, qual impressão me acometerá ao ouvir a palavra: Alemanha. Ou pensar: aquele lugar...
Escrevo pois estou ouvindo Kraftwerk (pela primeira vez com calma) e ele parece trazer gravado nas ondas sonoras toda aquela cidade. Nem mesmo sei se na verdade a minha experiência (lá) não esteve de certa forma condicionada inconscientemente por esse imaginário que já existia em mim (pelas poucas vezes que havia ouvido). Sempre soube que eles eram alemães e o sentido se invertia: sempre soube que a Alemanha era eles. De modo que a contradição entre impressões prévias (imaginário) - experiência (experimento do "Real") - impressões póstumas, se desenhe de uma forma teleológica: não houve liberdade de percepção quando (lá) nem lembrava dessas músicas. O resultado é que o sentido foi reforçado. Hoje, essa música me transporta para as cenas e sensações que remetem aquela experiência, mas a experiência agora não existe mais (a não ser como experiência da memória...) e, logo, me remetem não à experiência mas aos significados daquele símbolo: ALEMANHA. Me remetem sempre ao resultado e não mais ao processo. O lugar se transforma num objeto imaginário, tipo um ano que passou e agora me recordo. Me recordo do que? da experiência. E o que é a experiência? Como posso acessá-la se sua natureza é ser sempre passado? Me recordo das impressões, logo a experiência só tem valor enquanto deixa vestígios (conscientes ou inconscientes), quando grava algo que pode resistir à passagem do tempo. Talvez por isso seja tão difícil pensar sobre o presente, ainda não o sentimos distante para perceber as marcas que ele deixa. E se lembrar é descobrir o que ficou gravado, é uma forma de transporte, não para um outro tempo (o tempo da experiência está, desde vivido, inacessível como tal), mas para outras lugares de mim. Esse descobrir-se precisa do estímulo externo para se fazer valer: temos então uma nova experiência, mais consciente porém menos calculada: é a memória involuntária.
Kraftwerk me fez lembrar, então, daquelas ruas, amplas e cheias de ar, vento em forma de parede, passando. As linhas de metrô, trem, bonde e sei lá mais o que, todas linhas, passando coloridas num mapa de papel. Passeios gráficos: conheci muito bem essas articulações subterrâneas das cidades. Espécie de exploração dos esgotos que a recorta conforme os bueiros: perde-se as conexões, fica uma cidade que se percorre artificialmente. Ela mesmo parece hostil ao passeio, parece feita de espaços artificiais. Parece uma cidade... reconstruída! Uma cidade pós-traumática tem o problema de não ter mais as marcas físicas do seu passado gravado. Espécie de fetichismo da cidade: esconde-se os vínculos de produção do novo, daquilo que é vivido enquanto natural. Por isso é uma cidade "moderna", ela é a mais histórica das cidades exatamente no sentido em que caminha para suprimir os vestígios,que estão por toda parte, emoldurando todos na forma não significante de museus, memoriais, estátuas e etc. A cidade em si, seu metabolismo, é recente, é calculado por computador. (COMPUTER WORLD). Ao mesmo tempo não vemos quem cria essas formas artificiais de sociabilidade. Elas são vividas mais como Big Brother, algum sujeito onipotente e invisível, desenha-a com linhas geométricas.
Vale lembrar, a cidade é muito bonita. É tão radiante em dias de sol. É densa como o frio. O passeio árduo se revela cheio de curvas, labirintos de ruas cobertas de neve, onde as trajetórias se apagam, os caminhos se desfazem para que perdido, possa-se conhecê-la. A neve tem seu papel preciso. Dá uma identidade entre céu e chão e por isso flutua-se, como moléculas, sobre o céu refletido. Na verdade não tem nada a ver com moléculas! Talvez pareça mais um sinal percorrendo um chip. É desse tipo de "não-atrito" que falo. Relações muito básicas, muito pouco orgânicas. Números, sinais, signos abastratos, matemática. Talvez seja isso que expresse a cidade na música: a repetição de caracteres simples, produzidas por formas digitais/eletrônicas de som, não há cordas vibrando, não há vibratos, não tem a riqueza da madeira. A cidade está mais para plástico, com sua superfície violentamente lisa, onde não há como se agarrar, a viagem é impulso e só. Não há farpas. A impressão de quem sai não é a de estar gravado, marcado. Mas os efeitos desse outro mundo só se mostram inteligíveis à distância. Quando no calor e no suor, na presença sofrida, pesada e úmida, parece possível uma existência etérea, feita de números, que dominam a percepção, anulam de certa forma a subjetividade, numa opressora viagem virtual ao centro da velocidade e do vazio. (perdoem o final melodramático, estou no Brasil e ainda apelo).
posted by PEDRO CAZES 23:42
Primeiros Meses
E descobri (meio por acaso)
não há nada mais belo
que uma mulher nos primeiros meses
de gravidez.
Um jeito todo seu de,
distraída,
passar a mão na barriga
enquanto (h)a espera.
um carinho sem tamanho vestido de serenidade
para algo que é seu e já não é mais, é mais
uma certa celebração sincera e aberta
chaminha de alegria que se coloca nos fundos dos olhos
e dá brilho
da gosto de ouvi-la falar da vida
ela faz planos baseados no amor
e isso, me pareceu tão grande...
* * * *
O que há no jeito de uma mulher
jovem
sentar-se à tarde de vestido
e cruzar as pernas?
A tarde deve ser de outono (sublime)
e o sono do poeta anunciou no tranco:
sonho!
posted by PEDRO CAZES 00:05